por Satguru Bodhinatha Veylanswami
Ao falar de suas mais elevadas realizações, Paramaguru Yogaswami certa vez comparou sua ascensão interior através dos chakras à escalada exterior do pico mais alto do mundo.
“Eu escalei o Monte Everest em três dias. Lá, não há nada. Nem sol, nem lua. Depois, você desce e há dharma, adharma e todas as coisas.”
Gurudeva, Sivaya Subramuniyaswami, descreve esse estado da seguinte forma:
“Muitas pessoas imaginam a realização de Parasiva — atemporal, sem forma e além do espaço — o nirvikalpa samadhi, como o mais bem-aventurado de todos os estados de bem-aventurança, a abertura dos céus, a descida dos Deuses, um momento de suprema e sublime alegria; ao passo que, em minha experiência, isso se assemelha mais a um darshan afiado e cortante, uma cirurgia psíquica — não uma experiência de êxtase, mas algo semelhante a uma experiência de quase-morte, resultando em uma transformação total. A bem-aventurança que frequentemente é ensinada como realização final é, na verdade, outra realização: Satchidananda, um efeito posterior do nirvikalpa samadhi e, ao mesmo tempo, um ‘antes’. Isso significa que Satchidananda, o savikalpa samadhi, pode ser alcançado cedo por almas puras de coração. Significa também que não se deve avaliar a realização suprema com base na bem-aventurança, pois ela a transcende.”
“Em minha experiência, o chakra anahata (cognição direta) constitui um local de repouso caracterizado por uma serenidade ativa, por percepção ponderada e por quietude. Aqueles de natureza mais refinada que chegam ao florescimento desse chakra são liberados de emoções turbulentas, pensamentos conflitantes e perturbações. Para muitos, esse é o fim do caminho — a conquista da paz, ou shanti. Contudo, quando shanti é alcançada da forma aqui descrita, isso marca, em minha experiência, o início do caminho, ou a segunda etapa, o segundo nível. É a partir desse ponto que as práticas do raja yoga passam a firmar-se, uma vez que shanti tenha sido estabelecida.”
Nessa explicação, Gurudeva oferece uma descrição precisa do chakra anahata — o quarto centro de consciência — como um local natural de repouso no caminho rumo ao cume de Parasiva. Observemos mais de perto essa metáfora, comparando a ascensão interior através dos chakras à escalada exterior do Monte Everest.
Do lado nepalês do Everest, a última cidade abaixo do ponto de partida dos alpinistas é Katmandu. Podemos comparar viver em Katmandu à condição dos indivíduos antes de começarem a voltar-se para dentro, antes mesmo de terem conhecimento dos chakras. A consciência daqueles que vivem em Katmandu está centrada nos três primeiros chakras: muladhara (memória), svadhishthana (razão) e manipura (força de vontade). Quando alguém se torna um aspirante a estados mais elevados de consciência, isso se assemelha a voar de Katmandu até a cidade de Lukla, o primeiro destino dos escaladores. A trilha de Lukla até o Acampamento-Base do Everest tem cerca de 65 quilômetros em cada sentido e, em geral, é percorrida em oito a dez dias, permitindo a aclimatação. O caminho atravessa diversas aldeias antes de alcançar o acampamento base.
Para que o aspirante alcance seu acampamento-base interior — o chakra anahata — o tempo exigido é muito maior do que oito ou dez dias. São necessários anos de sadhana diária e constante: uma jornada de purificação do subconsciente, refinamento da concentração, viver dharmicamente, resolução de karmas e desenvolvimento de uma natureza devocional.
Como é evidente, alcançar o acampamento-base não é o objetivo final, nem para o alpinista nem para o aspirante. Para o alpinista, existem ainda quatro acampamentos adicionais ao longo do percurso, totalizando cinco. É a partir do quinto acampamento que os escaladores realizam o ataque final ao cume, situado a cerca de 8.850 metros — a maior altitude da Terra acima do nível médio do mar. Em sua busca interior, o aspirante deve aprender a estabilizar a consciência no chakra anahata. Em seguida, por meio do raja yoga, empreende a ascensão pelos dois chakras seguintes: vishuddha (amor divino) e ajna (visão divina). Se perseverar, alcança o chakra coronário, sahasrara, e realiza Parasiva — o Absoluto.
Examinemos agora o que é vivenciado quando funcionamos no chakra anahata, nosso acampamento-base interior. Gurudeva o descreve como o domínio dos artistas, inventores e criadores de toda espécie. Cada vez que concebemos ou criamos algo, estamos trazendo a beleza do interior, por meio do sistema nervoso, à manifestação. Gurudeva afirma:
“É um lugar belo para se estar, e é possível permanecer nele o tempo todo ao sentir a energia percorrendo a espinha dorsal. No instante em que essa energia radiante é percebida, a consciência instintiva-intelectual é deixada para trás, e a consciência eleva-se à quarta [dimensão].”
Alguns minutos de controle da respiração auxiliam a perceber essa energia na coluna. Visualize um tubo claro no centro da coluna vertebral sendo preenchido por uma luz amarela que desce do topo da cabeça. Em seguida, perceba interiormente essa força vital pura fluindo pela coluna e irradiando-se pelo sistema nervoso.
Gurudeva acrescenta:
“Pessoas com o chakra anahata desperto são, em geral, equilibradas, satisfeitas e autocentradas. Na maioria dos casos, seu intelecto é altamente desenvolvido e seu raciocínio é aguçado. A sutileza refinada de sua natureza torna-as extremamente intuitivas, e o que resta dos instintos básicos e das emoções é facilmente resolvido por meio das faculdades do intelecto. É importante que o aspirante sério adquira controle suficiente sobre suas forças e karmas para permanecer estabilizado no centro do coração. Esse deve ser o seu ponto de retorno, e raramente — ou nunca — sua consciência deveria cair abaixo do anahata. Somente após anos de sadhana e transmutação isso pode ser alcançado. Mas deve ser alcançado, e a consciência deve firmar-se aqui antes que se busque um desdobramento ulterior.”
As observações de Gurudeva sobre o chakra anahata harmonizam-se plenamente com a metáfora do acampamento-base do Monte Everest.
O objetivo inicial de todo aspirante é vivenciar o chakra anahata durante sua vigília matinal de sadhana e, gradualmente, sustentar essa consciência pacífica e criativa ao longo do dia. No entanto, após iniciar o dia em um estado de contentamento, criatividade e intuição, o aspirante logo se depara com as muitas formas pelas quais esse estado interior pode ser perdido. A seguir, apresentamos seis orientações para sustentar uma consciência sublime.
Orientações para sustentar uma consciência sublime
1. Viver Dharmicamente
A exigência primordial é observar os yamas — as disciplinas éticas do Hinduísmo. Ações adhármicas, como mentir ou ofender os outros, perturbam a mente, agitam as emoções e nos afastam do eixo interior, lançando a consciência no redemoinho do exterior.
2. Evitar Argumentações
Não permitir que divergências se transformem em discussões é igualmente essencial. Divergências são naturais, mas devem ser tratadas de forma lúcida e harmoniosa, sendo resolvidas prontamente, e não deixadas para se agravar. É necessário estar disposto a ceder para impedir que conversas descambem para o conflito. Discussões no ambiente doméstico são particularmente desestabilizadoras.
3. Limitar as Necessidades
Diariamente somos expostos a uma sucessão incessante de estímulos que prometem maior felicidade por meio da aquisição do que anunciam. Esse apelo constante representa um sério obstáculo à manutenção de uma consciência contente. Carros novos, computadores mais rápidos, roupas da moda — todos prometem aquele estado mental sempre evasivo chamado felicidade. Podemos transcender esse falso encanto ao manter a perspectiva de que já estamos satisfeitos com o que temos. Se algo mais for adquirido, que seja não para nos tornar mais felizes, mas para beneficiar a família de maneira genuína.
4. Cultivar a Gratidão
A gratidão é um componente essencial da consciência interior. Um meio direto de cultivá-la é reconhecer e agradecer pelas bênçãos presentes na vida: a família e os amigos, o trabalho ou os estudos, o lar em que vivemos, a sabedoria e as práticas de nossa religião.
5. Viver no Agora
A afirmação “Eu estou bem aqui e agora”, uma ferramenta metafísica oferecida por Gurudeva em Merging with Siva, auxilia na sustentação da consciência interior. Ela permite habitar a eternidade do instante, estar pleno no agora, sem ansiedade em relação ao futuro nem apego ao passado.
6. Encontrar o Contentamento Interior
Quando buscamos no mundo exterior a fonte de nossa felicidade, a vida se torna uma sucessão de oscilações emocionais. Quando o contentamento é extraído de dentro, a vida se torna livre de recompensas externas, e a alegria que daí surge pode ser naturalmente compartilhada com os outros.
Embora nem todos aspirem conscientemente às realizações mais elevadas dos chakras superiores — vishuddha, ajna e sahasrara — e, em última instância, à realização de Parasiva, esse é, de fato, o destino de toda alma. Para aqueles atraídos pelo Grande Caminho nesta vida, o passo fundamental consiste em despertar o chakra anahata durante a vigília diária e, gradualmente, aprender a permanecer centrados nele ao longo do dia. Para outros, ainda em preparação para essa ascensão, simplesmente viver a partir do coração já oferece uma alegria silenciosa — nutrindo a criatividade, aprofundando a compaixão e trazendo paz a cada momento da vida.