O Hinduísmo oferece métodos para assegurar uma consciência espiritual por meio da purificação da mente e do aquietamento da atividade mental
por Satguru Bodhinatha Veylanswami
Comecemos com uma pergunta ampla: o que exatamente distingue alguém que acredita em uma religião — um religioso — de alguém que não acredita — um secularista? Um religioso normalmente acredita que cada pessoa possui uma alma, uma essência que continua a existir após a morte. Um secularista, em geral, acredita que, quando o corpo morre, tudo termina — nada sobrevive à morte da forma física.
Aprofundando um pouco mais: um religioso também acredita que o que acontece à alma após a morte depende de como a pessoa viveu. Se suas ações foram virtuosas, a alma vai para um lugar que alguns chamam de céu. Se suas ações não foram virtuosas, a alma experimenta aquilo que se costuma chamar de inferno.
A Visão Hindu
O Hinduísmo compartilha várias dessas crenças. Sim, a alma sobrevive ao corpo e, sim, há experiências após a morte que podem ser comparadas ao céu e ao inferno. Mas acrescenta algo singular — algo profundo. Ensina que esses não são apenas lugares para onde vamos depois de morrer. São também estados de consciência que vivenciamos aqui e agora.
Tomemos o céu, por exemplo — chamado svarga em sânscrito. Ele não é apenas um reino celestial distante. É um estado de consciência elevada, de alegria e clareza, ao qual podemos ter acesso neste exato momento. O mesmo se aplica ao inferno — naraka. Não é simplesmente um mundo subterrâneo em chamas. É um reflexo de nossa própria turbulência interior. Se alguém morre preso ao medo, ao ódio ou à confusão, sua alma é atraída para um plano que espelha esse estado interior. Se morre em paz e amor, eleva-se a um plano que reflete essa paz.
O Que Significa Acessar uma Consciência Mais Elevada
Isso nos conduz naturalmente à pergunta: se o céu é um estado de consciência, como acessamos esse estado mais elevado — como podemos viver nele agora? O Hinduísmo responde com um belo conceito: atma darshana — a experiência direta da alma. Atma significa alma. Darshana significa visão, incluindo visão mística ou divina.
Imaginemos o que ocorre quando realmente nos voltamos para dentro — quando mergulhamos em nossa essência espiritual, no domínio do atma. Podemos conceber essa jornada em quatro etapas. A primeira nos conduz a uma consciência intuitiva e serena — um espaço de confiança tranquila, criatividade e paz interior. A segunda nos leva a um estado de amor incondicional por todos os seres. A terceira revela uma luz interior brilhante, na qual se tornam possíveis visões de Seres Divinos, sábios e realidades mais elevadas. A quarta nos conduz além da forma — a um vasto espaço interior silencioso e luminoso, um domínio de pura consciência, no qual até mesmo a identidade se dissolve no Transcendente.
Por Que Não Vivenciamos Isso com Frequência?
Imagine um lago de águas claras. No fundo, brilhando em suas profundezas, há grandes pepitas de ouro — nossa natureza da alma. Mas se a superfície do lago está agitada pelo vento, ou se a água está turva de lama e impurezas, não conseguimos ver o ouro. As ondulações representam nosso intelecto inquieto. A turvação representa os conteúdos do subconsciente — medos antigos, memórias, hábitos e distrações. Para ver com clareza, precisamos de quietude. Precisamos de clareza. Precisamos de pureza da mente. E, igualmente importante, precisamos de humildade — uma disposição suave para observar a nós mesmos, sem julgamento, com abertura.
O Ruído Mental e Seus Remédios
É útil considerar que os pensamentos podem ser agrupados em cinco categorias.
1. Questões Recentes
A primeira fonte de ruído mental são acontecimentos recentes não resolvidos — discussões, eventos traumáticos, abalos emocionais. Quando o subconsciente continua trazendo essas lembranças à superfície, isso indica que ainda estão carregadas de emoção e não foram resolvidas. Se as ignoramos, a tensão reprimida passa a contribuir para uma natureza inquieta e ansiosa. É mais fácil resolvê-las enquanto ainda estão recentes — conversando com as pessoas envolvidas, oferecendo um pedido sincero de desculpas quando ofendemos alguém e estendendo o perdão quando fomos ofendidos. Essa liberação emocional permite que a experiência se assente em paz.
2. Preocupações do Passado
A segunda fonte são experiências não resolvidas de muito tempo atrás. Essas memórias antigas surgem ocasionalmente — talvez não a ponto de dominar o dia, mas o suficiente para causar desconforto. Muitas vezes, já não é possível conversar com as pessoas envolvidas. Uma técnica útil aqui é o registro do material subconsciente: escrever os sentimentos numa folha de papel e, em seguida, queimar o papel com a intenção de liberar a carga emocional. Quando feito com sinceridade, a memória permanece, mas sem o peso.
3. Ansiedade em Relação ao Futuro
A terceira fonte de perturbação é a preocupação. Imaginamos que as coisas darão errado e, por vezes, somos tomados pelo medo. Um remédio para isso, ensinado por meu guru, Sivaya Subramuniyaswami, é o uso de afirmações simples. Por exemplo, quando os pensamentos começam a se projetar para um futuro desconhecido, diga a si mesmo: “Eu estou bem aqui e agora.” Repita com suavidade até que a consciência se estabeleça no momento presente.
4. Grandes Decisões
A quarta categoria envolve decisões — especialmente as grandes decisões da vida. Muitas vezes ficamos repassando-as mentalmente sem avançar, transformando-as em mais uma preocupação. A solução é agendar a decisão. Estabeleça um horário claro — por exemplo, sábado às 10h — para sentar-se e resolvê-la. Sempre que o assunto surgir antes disso, lembre-se: “Já reservei um momento para lidar com isso. Não preciso pensar nisso agora.”
5. Conversa Mental Cotidiana
A quinta fonte é o burburinho mental cotidiano — pensamentos sobre tarefas, obrigações, e-mails ou a conversa inquietante dos acontecimentos do mundo. Esses podem ser aquietados por meio do controle da respiração, o pranayama. Uma técnica simples é esta: inspirar contando até nove, reter por um, expirar contando até nove, reter por um. Alguns minutos dessa respiração acalmam o sistema nervoso e aquietam o fluxo de pensamentos.
Purificando o Subconsciente
Tão importante quanto dominar os pensamentos é purificar a mente. Por que a mente precisa ser purificada? Porque pensamentos, palavras e ações adhármicas praticadas nesta vida e até mesmo em vidas passadas criaram samskaras negativos (impressões) que obscurecem o subconsciente. A purificação da mente — chitta shuddhi — é, portanto, essencial. A Enciclopédia do Hinduísmo (India Heritage Research Foundation) expressa isso com clareza: “A purificação da mente pode ser considerada a essência de todos os esforços espirituais.” Como realizamos isso?
A primeira estratégia é a contenção: escolher não acrescentar novas impurezas. Isso significa viver dharmicamente — não ferir os outros, não roubar, não mentir, e assim por diante. Ao viver eticamente, deixamos de adicionar mais lama à água do lago.
A segunda abordagem é seva — o serviço desinteressado. Quando realizamos ações altruístas e elevadas, passamos a acumular samskaras positivos. Eles se misturam aos menos meritórios e, de forma sutil, começam a remodelar nossa natureza e nosso futuro. Efeitos kármicos difíceis, que seriam enfrentados plenamente no futuro, tornam-se suavizados pelas impressões positivas de nossas ações presentes. Quando agimos de forma desinteressada, oferecendo os frutos de nossas ações ao Divino, a criação de novos samskaras problemáticos é reduzida, e nosso fardo kármico total é gradualmente atenuado.
A terceira prática é o culto às Deidades — participar de pujas e homas no templo. Meu Gurudeva observou: “Visitar um templo Hindu, receber darshan dos majestosos Deuses de nossa religião, pode transformar completamente a vida de um devoto. Isso altera o fluxo dos pranas, as correntes vitais, em seu corpo. Atrai sua consciência para chakras mais profundos… O devoto passa a conhecer e amar a Deidade. A Deidade passa a conhecê-lo e amá-lo, auxiliando e orientando todo o seu padrão evolutivo.”
O quarto método é o caminho óctuplo do raja yoga. O sábio Patanjali explica, nos Yoga Sutras, como a prática dos oito membros do yoga gradualmente remove as impurezas e conduz ao conhecimento luminoso. Tapas (austeridade), embora difícil, é especialmente eficaz. Realizar penitências para expiar faltas é uma forma comum de tapas — como 108 prostrações diante da Deidade no templo ou prostrações em caminhada ao redor de um templo.
E Então, uma Mente Serena
Por fim, retornamos à água clara do lago. É por meio da purificação da mente, do aquietamento do intelecto e da espiritualização do ego que crescemos, evoluímos e, por fim, experienciamos nossa natureza dourada da alma. Com a mente purificada, podemos ver as pepitas de ouro no fundo — nossa verdadeira natureza — libertando-nos dos estados inferiores da mente e ingressando no céu interior.